Investigação envolvendo Vocaro ameaça candidaturas e carreira de políticos

Foto: Ana Paula Paiva/Valor

Este texto é da newsletter de Thomas Traumann, enviada toda segunda-feira de manhã com uma análise do cenário político na semana que se inicia. Para ler antes da publicação on-line, direto no seu e-mail, clique aqui para se inscrever.

Oi, com as negociações aceleradas para a delação do banqueiro Daniel Vorcaro, o mundo político tenta saber qual será o limite das acusações, que pela primeira vez podem atingir ministros do STF, presidentes da Câmara e do Senado e uma igreja.

Nesta edição, falo ainda das sugestões do entorno do presidente Lula para aproveitar a guerra do Irã para tomar medidas eleitoreiras, a tática low profile de Flávio Bolsonaro e as informações sobre uma delação do empresário Ricardo Magro. Boa leitura!

Nesta edição:

Eu sei o que você fez no verão passado

A pressão para Lula repetir Bolsonaro

Em nome do filho

O candidato invisível

A volta das compras chinesas

O caminho das 40 horas

Tudo sobre a mesa

O homem bomba

Os ministros mais longevos da República

Fique atento

1. Eu sei o que você fez no verão passado

A anunciada delação do banqueiro Daniel Vorcaro é capaz de demolir candidaturas e encerrar carreiras no governo, no Congresso e no Supremo Tribunal Federal. Mas, mais ainda, num país onde o presidente será escolhido por poucos milhões de votos, Vorcaro será um fator chave na definição do resultado, ao lado do impacto do preço do petróleo na economia, da sensação de insegurança nas ruas e da eventual interferência de Donald Trump. Só que diferente dos outros fatores, a delação de Vorcaro tem potencial que vai além de outubro e pode gerar uma crise institucional com consequências futuras.

Desde que Vorcaro foi preso, o Congresso parou. Não há mais sessões presenciais e nada de relevante está sendo votado. Enquanto o resto do Brasil se preocupa com os preços dos combustíveis, deputados, senadores, ministros do governo e ministros do STF tentam adivinhar qual o rumo das acusações, se é que haverá um. Sem ainda saber as provas que Vorcaro acumulou ou o que a Polícia Federal já coletou, o establishment político se articula para tentar traçar uma linha limite para a delação.

Por partes.

Dono do banco Master, Vorcaro é o primeiro delator que terá de falar sobre seu relacionamento com três ministros do Supremo Tribunal Federal — pela ordem de surgimento no caso, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Kássio Nunes Marques. Para lembrar:

Dias Toffoli tem uma empresa familiar que fez negócios com um fundo ligado ao universo do Master e, como relator do caso no STF, passou dois meses usando estratagemas para dificultar as investigações e resguardar Vorcaro.

O GLOBO mostrou uma troca de mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes no dia de sua primeira prisão, em novembro. Como revelou a colunista Malu Gaspar, o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci, recebeu R$ 80 milhões do Master por dois anos de serviços ainda mal explicados.

Mais novo no grupo, Kássio Nunes Marques também tem elos familiares com o escândalo. Os repórteres Vinícius Valfré, Aguirre Talento e Levy Teles, do Estadão, descobriram que seu filho Kevin — 25 anos, dois anos de advocacia — recebeu R$ 281 mil da empresa Consult, contratada por R$ 18 milhões do Master e da JBS. O repórter Breno Pires, da revista Piauí, mostrou que Kevin é sócio do filho do dono da Consult.

Nunca um delator teve tamanho poder nas mãos.

Brasília está acostumada a denúncias contra políticos — estejam eles no Congresso ou no governo —, mas nunca lidou com uma situação em que ministros do Supremo, os julgadores de última instância, façam parte do problema. Isso leva o jogo para um terreno desconhecido, onde as velhas estratégias de sobrevivência não dão garantia.

Como qualquer colaborador, Vorcaro terá de oferecer à Polícia Federal, à Procuradoria-Geral da República e ao ministro do STF André Mendonça elementos que avancem em relação ao que já se sabe e ao que ainda se saberá na quebra dos sigilos bancários e de dados de celulares. Esta não poderá ser uma delação do “ouvi dizer”, como ocorreu tantas vezes na Operação Lava-Jato.

O depoimento terá de ser aceito pelo procurador-geral Paulo Gonet, que deve o seu cargo à amizade com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. Até agora, Gonet atuou mais como um defensor do que um procurador. Em dezembro, ele arquivou o pedido para investigar Alexandre de Moraes pelo contrato da mulher. Em janeiro, arquivou os pedidos para afastar Dias Toffoli da relatoria do caso. Em março, ele pediu mais tempo para analisar o pedido de prisão de Vorcaro, embora os documentos da PF apontassem risco à integridade física de desafetos do banqueiro.


Fonte: Jornal O Globo